No filme a “Classe operária vai ao paraíso” tem uma cena, em que o torneiro mecânico de alta produtividade diz: “Uma peça uma bunda, outra peça outra bunda”; e produzia freneticamente e portanto era paradigma para os demais trabalhadores que tinham que produzir o mesmo. Só que ele era excepcional e quase impossível de ser igualado na produção e por isso também odiado pelos seus pares. Também na concepção de Gramsci um “indiferente”, não entendia nada de política e odiava os que dela gostavam, inclusive aquela bunduda pela qual ele tinha tesão e era o motivo da sua grande produção. Para ele, ela devia ser apenas mulher, nada mais que isso, muito menos gostar de política, ponto de discórdia e de rejeição.
Pois tenho me dito que fui feliz enquanto nada sabia, muito menos da realidade que me cercava; a miséria, a fome e a exploração eram palavras que estavam longe do meu léxico vulgar, do meu conhecimento de leituras em gibis e revistas que mostravam um mundo irreal e festivo. Meu negocio era trabalhar e transar, com isso satisfazia meu ego e sublimava todas as demais necessidades e porque não; a potencialidade intrínseca de um citadino do qual muito se espera.
Um amigo por intuição ou para dizer-me que eu era um ignorantão me ofereceu e aceitei ler de Friedrich Nietzsche ASSIM FALOU ZARATUSTRA; confesso bagunçou minha cabeça. Só fui perceber a sátira, a poesia e a ficção de um Nietzsche escrachante muitos anos mais tarde ao introduzir-me nos conhecimentos de filosofia e aprofundá-lo para conhecer e fazer leitura da realidade e tudo o mais que cerca a vida dos trabalhadores.
Hoje, com toda a movimentação que esta a ocorrer no mundo do trabalho, as revoltas pacíficas e as não tão pacificas promovidas por populações tão distintas como são distintas as suas realidades, seu Status quo e seu modus vivendi; só para entender: Um trabalhador na Inglaterra, Alemanhã e França tem uma qualidade de vida e de trabalho com pontos percentuais acima de qualquer outro trabalhador do bloco comum europeu, se fizermos comparações com outros continentes, as diferenças são gritantes e infinitamente dispares.
Mas eles estão no mesmo momento histórico indo as ruas para protestar e gritar por melhores condições de vida e de trabalho e também fazendo negação da negação do modelo político a que estão submetidos. Esta é uma realidade e uma verdade que não pode ser escondida, ainda que omitida.
Confesso, hoje sofro porque sei, ainda que nada sabendo como ensinou Sócrates.
Apenas consigo fazer leitura da minha realidade e da realidade dos trabalhadores do mundo contemporâneo que já não aceita passivamente pagar a conta de um bolo que cresceu tortamente, apenas para um único lado.
Tenho convicção de que o grito e a ordem dada pela burguesia na revolução francesa de igualdade fraternidade e liberdade podem mudar não somente a sua ordem original, mas e também a ampliação do seu espectro de ação voltando-se para atender os anseios de liberdade, de fraternidade e de igualdade para todos os homens em todos os quadrantes da terra onde houver a exploração do trabalho.
Acordam-se os trabalhadores do seu longo período de apatia e de imobilismo e gritam aos quatro cantos que é chegada à hora de um novo tempo; que chega de miragens, queremos a certeza de que as riquezas produzidas por nós, sejam nossas, sem mais nem menos. Por isto indago: Estou certo?
Digam-me que sim; Digam-me que não!
Cao amigo Ademir! Sinto prazer em ler algo tão real, tão nosso... Somos responsáveis por aquilo que cativamos já afirmava São Francisco de Assis. É mais fácil viver na ignorância, lendo gibis e assistindo novelas - assistindo também a história do nosso Brasil passar. Se continuarmos acomodados com medo de nos incomodar, do futuro não temos o direito de sonharmos com coisas melhores, com qualidade de vida. Quanto menos gente "mandando" melhor para esse pequeno grupo. Um grande abraço
ResponderExcluirLenoir Steiner Becker
Lenoir meu caro.
ResponderExcluirFico feliz em tê-lo aqui na minha telinha, porém não esquecer que a introdução da leitura em HQ nos jovens infantes é uma forma de dominação como nos ensinou Louis Althusser com a sua tese dos aparelhos ideológicos do estado. Manter o jovem na ignorância é útil para o domínio da força de trabalho, inclusive a de reserva, que esta sempre angustiada com o desemprego e os baixos salários.
Saúde