O Brasil e os brasileiros, vivem um momento paradoxo. Discutem a sua história recente sob o prisma dos vencidos e para tanto o governo da Presidente Dilma cria e instala uma comissão de notáveis para rever e trazer a público o que a história dos vencedores deixou para traz num rastro de sangue, de mutilações, de mortes e de desaparecidos ainda não esclarecida.
As famílias dos desaparecidos e dos mortos clamam por reencontrar-se com o passado e com a verdadeira história de seus filhos. Muitos destes resistiram bravamente nos calabouços da república e portanto têm o altruísmo e a estirpe dos heróis. É claro os torturadores e seus mandantes não querem isto, ou isto é um desvario que não pode ser permitido; eis ai o paradoxo.
A coragem da figura central da república, sem medo e sem constrangimento manda apurar os fatos e os adversários nada podem fazer contra a decisão da presidenta, ela uma vítima das agressões gratuitas de um regime que precisava de um inimigo para impor as suas vontades.
Ocorre que eles que sempre tiveram a primazia de agir na surdina, no anonimato, tem vindo a público para dizer que houve excesso dos dois lados, do agressor e do agredido.
Pasmem, queriam que os agredidos não se defendessem, queriam que os democratas calassem diante das agressões aos seus princípios. Parece-me queriam tudo além de violentarem a ordem de direito, queriam um estado absolutista, suprimindo as liberdades e afugentando as manifestações de qualquer ordem. Na verdade estou sendo generoso, porque entendo que o momento é de generosidade. “Eles não queriam; o termo é: eles transformaram uma jovem democracia numa republica tirana e perversa, violenta, repugnante”.
A America Latina vivia um momento de rompimento com os governos autoritários, tendo iniciado a ruptura em Cuba, botando para correr os Batistas comandados e liderados por Fulgêncio. Diga-se a classe
dominante, que detinha três quartos da industria do açúcar, que por sua vez pertencia a “mestres estrangeiros”.
No Brasil João Goulart Presidente da República, pretendia fazer uma revolução começando pelas reformas de base, diga-se, nacionalizar tudo o que produzisse riqueza. Como o Brasil não pertencia aos brasileiros, às forças dos chamados “trustes” forçaram o golpe civil-militar para derrubar o governo e investir com truculência sobre a sociedade civil organizada, mais particularmente contra o movimento sindical.
Lembro-me que minha cidade, pequena cidade do interior, com um forte movimento sindical na defesa dos interesses dos trabalhadores em minas de carvão, suas lideranças foram violentamente arrancadas de seus lares, de seus locais de trabalho, encarcerados, presos e torturados sem esboçarem qualquer reação. Quando se aperceberam estavam incomunicáveis e levados para quartéis bem longe do lugar onde moravam, alguns foram para a capital do estado, outros para a capital do Paraná.
É claro que esta ação de violência forçou os militantes a responderem, aqui, ali e acolá com ações de força na tentativa de chamar a atenção para um problema de ordem social que o país passara a viver. No primeiro ano, congressistas tiveram “cassados” os seus mandatos e muitos foram presos por ordem da ditadura.
Estou escrevendo isto para dizer que o golpe de estado pela sua própria natureza violenta, gerou represálias também com violência numa atitude de defesa da integridade física e moral de seus integrantes.
Portanto, penso, que antes de investigar a violência provocada pelos agredidos, a Comissão da Verdade deve investigar a violência provocada pelos agressores a ordem constitucional e as organizações da Sociedade Civil e no rastro desta investigação, surgirão aqui, ali e acolá ações dos insurgentes que podem ser recontadas para a grandeza do Brasil.
Devemos ter em conta, sempre, que se não existisse o golpe militar, não haveria contra revolucionários usando dos seus métodos e dos seus meios para defender sonhos de uma pátria livre de expropriadores das nossas riquezas.
Passei a ser um desafeto da Presidenta Dilma, porque ela tem demonstrado que prioriza o apoio ao sistema financeiro internacional e arrocha os salários dos aposentados, mas nesse caso da Comissão da Verdade, manifesto um aplauso a sua iniciativa.
Nós todos devemos aplaudir.
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