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sexta-feira, 18 de maio de 2012

Também tenho um sonho.

O Dr. Martin Luther King, no memorável discurso pronunciado em 23 de agosto de 1963, dissertou sobre a liberdade dos negros americanos, tendo como eixo a desejo de ver realizado um sonho. Ele disse “ Eu tenho um sonho”.
Ao longo do tempo nestes últimos 47 anos milhões de pessoas neste mundo globalizado também tem um sonho.
Pois o meu sonho não é tão auspicioso como o sonho do grande líder negro americano. O meu é o sonho de um garoto nascido e criado sob a égide da pirita e sobre o manto negro oriundo da extração do carvão que irresponsavelmente eram jogados em qualquer lugar e servia para pavimentar nossas ruas e vielas.
Nós os meninos e meninas oriundos de um tempo que nossos pais surgiam das entranhas da terra coberto de uma fuligem negra que lhes desfigurava o semblante, enegrecia seus pulmões e consumia a vida, caminhávamos descalço, peripatetizando por um futuro longínquo, desenhando nas estrelas um desejo profundo de ao menos não ter o futuro sombrio de nossos progenitores.
Queríamos uns, ser motorista de caminhão, policial, professor e uns poucos queriam ser doutor, menos mineiro; ou como dizia meu velho pai: mineiro e o escravo de um novo tempo.
Hoje, cinqüenta e tantos anos depois, tenho um novo sonho: Ver-me livre da prepotência e do autoritarismo que crassa e reverbera pelos sorrisos mentirosos de nossos homens públicos, principalmente aqueles que têm ou desejam ter mandato.
É difícil tratar com esta verve, que engana no adjetivo e no verbo.
Eles tornam o mandato popular em mandato em causa própria e usam o poder delegado como se poder absoluto tivessem.
É duro lidar com esta gente que não respeita o contrato; aprenderam com o Senhor Kane que o país é um grande palco e o povo são os espectadores que agem e reagem pelo estímulo de suas inverdades. Este mal contagia como dizia Ruy Barbosa: De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a
injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto. (Senado Federal, RJ. Obras Completas, Rui Barbosa. v. 41, t. 3, 1914, p. 86).
O poder dos maus contagia e aqueles que entraram bons, aos poucos vão adquirindo cacoetes que os deixam muito parecidos com os tiranos; de homens da verdade passam a serem homens de meias verdades. Fica impossível dar crédito nas suas vindinhas, até e porque dá pouco valor a cultura popular nascida no seio do povo.
Vem ai mais uma eleição dizem democráticas.
É elogiável a grande competência das elites políticas quando escreveram na constituição de 1888 no parágrafo único do seu artigo primeiro: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos diretamente, nos termos desta constituição”.
O verbo votar neste caso não se coaduna com o verbo emanar, muito menos com o verbo poder. Se você quiser pode conjugar assim: Eu nada posso. Tu nada podes. Eles tudo podem.
De tanto dizer mentiras, acabam acreditando que estão falando a verdade.
E nós de tanto ouvir inverdades acabamos descobrindo que tudo é mentira.
Mas o sonho continua.
Sonho com uma nação livre e democrática, com o povo discutindo seus principais problemas e os parlamentares tornado legal aquilo que é da vontade popular.
Sonho com o dia em que nenhuma “Emenda Constitucional” vigore sem a aprovação popular, plebiscitária.
Sonho com a democracia política, econômica e social, onde a regra geral e a distribuição das riquezas.
Sonho com a eliminação das discriminações de toda ordem.
Sonho com uma nação sem fronteiras, sem guardas, sem polícia, sem exercito e no ápice; sem escola.
Sonho com um governo que governe olhando para o bem estar social, para a proteção das crianças e dos idosos.
Sonho com um governo que governe, distribuindo equitativamente as riquezas da cidade e que seja isonômico nas decisões.
Sonho com a liberdade de ir e vir para todos.
Sonho com a eliminação da escravidão, principalmente a dos salários.
Sonho em ter direitos, que o direito ainda não me garante: de comer, vestir, dormir, morar, estudar, aprender.
Sonho com o dia em que as nossas crianças possam ir a escola não para serem domesticadas para o trabalho mas para serem incentivadas na sua rebeldia criativa.
Claro; contrariando o mito da felicidade subserviente e da liberdade dependente; Sonho com um mundo feliz.

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