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quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Os Indiferentes por Antonio Gramsci

Primeira Edição :La Città Futura, 11-2-1917

Origem da presente Transcrição: Texto retirado do livro Convite à Leitura de Gramsci

Tradução:Pedro Celso Uchôa Cavalcanti.

Transcriçãode:Alexandre Linares para o Marxists Interne tArchive HTML de: Fernando Antônio de Souza Araúj o para o Marxists Internet Archive Direitos de Reprodução: Marxists Internet Archive (marxists.org), 2005. A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License


Introdução do Blog.

"Este texto é de uma riqueza impar, o que se deve perguntar é: Porque os trabalhadores, os micros, pequenos e médios empresários se submetem ao silêncio diante da afronta de estados que estão a serviço do capital financeiro. Sugiro meditar sobre isto e posicionar-se diante dos fatos que aviltam a vida de bilhões de pessoas".

Como Friederich Hebbel acredito que "viver significa tomar partido". Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.

A indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam freqüentemente os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor do que as mais sólidas muralhas, melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e às vezes, os leva a desistir de gesta heróica.

A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade; e aquilo com que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói os planos mesmo os mais bem construídos; é a matéria bruta que se revolta contra a inteligência e a sufoca. O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heróico (de valor universal) pode gerar, não se fica a dever tanto à iniciativa dos poucos que atuam quanto à indiferença, ao absentismo dos outros que são muitos. O que acontece, não acontece tanto porque alguns querem que aconteça quanto porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer, deixa enrolar os nós que, depois, só a espada pode desfazer, deixa promulgar leis que depois só a revolta fará anular, deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar. A fatalidade, que parece dominar a história, não é mais do que a aparência ilusória desta indiferença, deste absentismo. Há fatos que amadurecem na sombra, porque poucas mãos, sem qualquer controle a vigiá-las, tecem a teia da vida coletiva, e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso. Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões limitadas e com fins imediatos, de acordo com ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens não se preocupa com isso. Mas os fatos que amadureceram vêm à superfície; o tecido feito na sombra chega ao seu fim, e então parece ser a fatalidade a arrastar tudo e todos, parece que a história não é mais do que um gigantesco fenômeno natural, uma erupção, um terremoto, de que são todos vítimas, o que quis e o que não quis, quem sabia e quem não sabia, quem se mostrou ativo e quem foi indiferente. Estes então zangam-se, queriam eximir-se às conseqüências, quereriam que se visse que não deram o seu aval, que não são responsáveis. Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos põem esta questão: se eu tivesse também cumprido o meu dever, se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu parecer, teria sucedido o que sucedeu? Mas nenhum ou poucos atribuem à sua indiferença, ao seu cepticismo, ao fato de não ter dado o seu braço e a sua atividade àqueles grupos de cidadãos que, precisamente para evitarem esse mal combatiam (com o propósito) de procurar o tal bem (que) pretendiam.

A maior parte deles, porém, perante fatos consumados prefere falar de insucessos ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes. Recomeçam assim a falta de qualquer responsabilidade. E não por não verem claramente as coisas, e, por vezes, não serem capazes de perspectivar excelentes soluções para os problemas mais urgentes, ou para aqueles que, embora requerendo uma ampla preparação e tempo, são todavia igualmente urgentes. Mas essas soluções são belissimamente infecundas; mas esse contributo para a vida coletiva não é animado por qualquer luz moral; é produto da curiosidade intelectual, não do pungente sentido de uma responsabilidade histórica que quer que todos sejam ativos na vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de nenhum gênero.

Odeio os indiferentes também, porque me provocam tédio as suas lamúrias de eternos inocentes. Peço contas a todos eles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhes impôs e impõe quotidianamente, do que fizeram e sobretudo do que não fizeram. E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar a minha compaixão, que não posso repartir com eles as minhas lágrimas. Sou militante, estou vivo, sinto nas consciências viris dos que estão comigo pulsar a atividade da cidade futura que estamos a construir. Nessa cidade, a cadeia social não pesará sobre um número reduzido, qualquer coisa que aconteça nela não será devido ao acaso, à fatalidade, mas sim à inteligência dos cidadãos. Ninguém estará à janela a olhar enquanto um pequeno grupo se sacrifica, se imola no sacrifício. E não haverá quem esteja à janela emboscado, e que pretenda usufruir do pouco bem que a atividade de um pequeno grupo tenta realizar e afogue a sua desilusão vituperando o sacrificado, porque não conseguiu o seu intento.

Vivo, sou militante.

Por isso odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes.

3 comentários:

  1. Maravilhoso texto, ao ler, me veio a questão dos vereadores, aumenta não aumenta, leva a opinião do povo em conta ou não, reduz ou não reduz o repasse das verbas para câmara de vereadores de Criciúma. As cidades como Joinville, Jaraguá do Sul, Blumenau e Itajaí votaram contra este aumento devido a manifestação de seus habitantes. Criciúma, mesmo tendo campanha contra este aumento, foi aprovado. Uma pena, poderiamos ser tão bons quantos as cidades do Norte do estado.

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  2. Prezado(a).
    Nós vivemos numa democracia representativa, ou seja elegemos alguém que nos representa nos parlamentos municipal, Estadual e Federal. Só que os mandatos são comprados. Para eleger um Vereador em Criciúma não custa menos que R$ 200.000,00. Um Deputado Estadual entre R$ 1.500.000 e R$ 2.000.000. Um Federal e um Senador as somas chegam próximas dos R$ 3.000.000 em média; repito em média. Com estes numerários fica difícil a representação popular se fazer presente nos parlamentos, ou o eleito defende um grupo, ou gasta dos próprios recursos, sem declarar a Justiça Eleitoral. Como a Justiça é cega, para ela manifestar-se tem que ser provocada com denuncias e ai pergunto: Alguém é capaz de denunciar?
    Com o aumento do número de Vereadores para cinqüenta há a possibilidade de uns dois ou três se elegerem sem grandes despesas e ai o povão vai ser representado. Se forem pessoas comprometidas e erguerem suas vozes contra os maus as coisas ficam melhores. O que não pode aumentar e o repasse de recursos, para doze ou para cinqüenta o índice tem que ser o mesmo. Ou você acha justo um Vereador em Criciúma receber por vinte e cinco horas mensais; aproximadamente quinze vezes o que ganha um trabalhador de salário mínimo ou um idoso. Ou Seja um aposentado e um trabalhador de salário mínimo precisa trabalhar quinze meses ou 3.330 horas para receber o que um Vereador de Criciúma recebe pelas suas vinte e cinco horas mensais.
    Pense nisso.
    Quando a democracia for participativa estes absurdo desaparecerão.
    Um abraço e obrigado

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  3. Não odeie, o ódio não traz nenhum benefício. São ignorantes que preferem se esconder, azar o deles!!

    Adorei o texto!!!

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